A escola não ensina a aprender

Passamos anos na escola aprendendo matemática, história, ciências e tantas outras disciplinas. Mas há algo fundamental que raramente nos ensinam: como aprender de forma eficaz. A escola nos ensina muitas coisas, mas não ensina o processo de aprendizagem em si.

O formato tradicional e suas limitações

O modelo que conhecemos bem (ler a apostila, assistir à aula, fazer exercícios e depois a prova) foi criado há muito tempo e, em grande parte, não incorporou as descobertas mais recentes da ciência cognitiva sobre como aprendemos melhor.

Esse formato foi otimizado para um objetivo específico: fazer provas que acontecem logo depois do conteúdo ser ensinado. Para esse objetivo limitado, ele pode até funcionar razoavelmente. Você estuda, faz a prova e pronto. Mas quando o objetivo é retenção de longo prazo e capacidade de aplicar o conhecimento em contextos variados, esse modelo mostra suas falhas.

Pesquisas mostram algo surpreendente: as técnicas de estudo mais populares e ensinadas nas escolas (como reler o material, sublinhar textos e fazer resumos lineares) estão entre as menos eficazes para aprendizado duradouro. Isso não significa que essas técnicas sejam inúteis, mas sim que existem estratégias muito mais poderosas que raramente nos são apresentadas

O impacto disso na vida adulta

Como passamos anos aprendendo apenas no formato tradicional da escola, quando chegamos na vida adulta e precisamos aprender coisas novas (um idioma, uma habilidade profissional, um hobby) muitas pessoas sentem que “não sabem mais aprender” ou que “perderam a capacidade de estudar”.

Mas a verdade é outra: você não perdeu a capacidade de aprender. Você simplesmente não conhece outras formas, mais eficazes, de estudar. E a boa notícia é que essas estratégias podem ser aprendidas em qualquer idade.

O que a ciência mostra que realmente funciona

Nas últimas décadas, pesquisadores da área de ciência cognitiva têm estudado intensamente como nosso cérebro aprende melhor. E os resultados são claros: existem estratégias muito mais eficazes do que o modelo tradicional. Vamos conhecer algumas delas:


1. Prática de recuperação ativa

Em vez de reler o material várias vezes, testar a si mesmo repetidamente é muito mais eficaz para a memória de longo prazo. Quando você tenta recuperar uma informação da memória (mesmo que não consiga de primeira), você está fortalecendo aquela conexão neural de uma forma que simplesmente reler o texto não consegue fazer.

Estudos mostram que pessoas que se testam repetidamente têm desempenho significativamente melhor em avaliações posteriores comparadas àquelas que apenas releem o material. Uma pesquisa demonstrou que a prática de recuperação reduz o esquecimento ao longo do tempo de forma mais eficaz do que simplesmente reestudar o conteúdo.

O interessante é que esse benefício acontece mesmo sem feedback imediato, ou seja, mesmo que você não saiba se acertou ou errou na hora, o simples ato de tentar recuperar a informação já fortalece a memória. Claro que receber feedback depois melhora ainda mais os resultados.


2. Revisões esporádicas

Estudar o mesmo conteúdo espaçado ao longo de dias ou semanas é muito mais eficaz do que estudar tudo de uma vez, mesmo que o tempo total de estudo seja o mesmo. Esse fenômeno é chamado de “efeito de espaçamento” e é um dos achados mais robustos da psicologia cognitiva.

Por exemplo: se você tem 4 horas para estudar um assunto, é melhor estudar 1 hora por dia durante 4 dias do que estudar 4 horas seguidas em um único dia. Pesquisas mostram que o espaçamento pode ter efeitos muito significativos na retenção, com tamanhos de efeito chegando a d = 1.0, o que é considerado grande.

Esse formato funciona porque, quando você retorna ao material depois de algum tempo, seu cérebro precisa fazer um esforço maior para recuperar aquela informação – e esse esforço é justamente o que fortalece a memória. Além disso, estudar em momentos diferentes cria contextos variados de aprendizagem, o que fornece mais “ganchos” mentais para você recuperar a informação depois.


3. Mapas mentais e mapas conceituais

Criar mapas mentais ou mapas conceituais é uma forma de organizar ativamente a informação, em vez de apenas recebê-la passivamente. Quando você desenha as conexões entre diferentes conceitos, está processando o conteúdo de forma muito mais profunda.

Uma revisão sistemática recente com estudantes de medicina mostrou que o uso de mapas conceituais melhorou significativamente o desempenho acadêmico, especialmente na retenção de conhecimento e compreensão. Outro estudo encontrou que mapas conceituais tiveram tamanhos de efeito moderados a grandes na melhora das notas em testes.

Além de melhorar o aprendizado, os mapas também aumentam a confiança dos estudantes. Eles são ferramentas flexíveis que podem ser usadas tanto para aprender quanto para ensinar, e ajudam a desenvolver pensamento crítico ao exigir que você identifique relações entre conceitos.


4. Aprendizagem ativa


Métodos de aprendizagem ativa – onde você manipula, aplica e explora o conteúdo ativamente – são muito mais eficazes do que simplesmente assistir a aulas expositivas tradicionais.

Uma meta-análise impressionante que incluiu 225 estudos mostrou que estudantes em aprendizagem ativa tiveram, em média, 6% a mais de nota em exames e eram 1,5 vezes menos propensos a reprovar comparados aos que apenas assistiam aulas tradicionais. Esses resultados se mantiveram consistentes em diferentes disciplinas e tamanhos de turma.

Aprendizagem ativa pode incluir coisas como: resolver problemas em grupo, fazer atividades práticas, discutir conceitos com colegas, aplicar o conhecimento em situações reais, entre outras. O ponto central é que você está fazendo algo com a informação, não apenas recebendo-a passivamente.


5. Metacognição (pensar sobre como você aprende)

Metacognição é a capacidade de monitorar e regular seu próprio processo de aprendizagem. É sobre estar consciente do que você sabe e do que não sabe, identificar suas dificuldades e ajustar suas estratégias de estudo.

Um estudo com estudantes de medicina identificou a metacognição como a habilidade mais importante para o sucesso acadêmico. Estudantes com melhores habilidades metacognitivas conseguem identificar quando não entenderam algo de verdade (mesmo que tenham a ilusão de que entenderam) e ajustam suas estratégias de estudo de acordo.

Práticas metacognitivas incluem: se perguntar “eu realmente entendi isso ou só acho que entendi?”, explicar o conteúdo em voz alta como se estivesse ensinando alguém, identificar quais partes do material são mais difíceis para você e merecem mais atenção.

Como aplicar isso na prática

A próxima vez que for estudar, teste fazer isso:

Em vez de reler suas anotações várias vezes, feche o caderno e tente escrever tudo que lembra sobre o assunto

Em vez de estudar tudo de uma vez, distribua seu estudo ao longo de vários dias

Em vez de fazer resumos lineares, crie mapas mentais conectando os conceitos

Em vez de apenas assistir vídeos ou ler textos, pause e tente aplicar o que aprendeu em exemplos práticos

Pergunte-se constantemente: “Eu realmente entendi isso? Consigo explicar para alguém?”


Fontes consultadas:
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Schraw, G., & Dennison, R. S. (1994). Assessing metacognitive awareness. Contemporary Educational Psychology, 19(4), 460-475.



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