Eu me vejo como uma composição de diferentes mundos: a sensibilidade da arte, a estrutura da sociedade, o rigor da ciência, a clareza da comunicação e a precisão da lógica.
Essa mistura foi a base que me permitiu superar as barreiras da linguagem e transformar completamente a minha forma de aprender.
Hoje, meu propósito é transbordar esse conhecimento e ajudar outras pessoas a também descobrirem seus próprios caminhos.
Minha Trajetória
Artes e desenvolvimento cognitivo e comunicativo
Logo no comecinho da infância, já tive alguns desafios. Tive um atraso significativo na fala e comecei a me expressar de verdade só aos três anos. E não era só a fala; eu também era uma criança bem retraída, daquelas que preferia ficar no próprio mundo e não gostava muito de interagir com as pessoas.
Percebendo isso, meus pais, grandes incentivadores da minha curiosidade, não buscaram apenas uma solução para a fala, mas uma porta para a minha socialização. Foi assim que, aos três anos, pisei em um palco de teatro pela primeira vez.
E o que começou como um empurrãozinho para eu interagir melhor, acabou virando uma parte essencial da minha vida que carrego até hoje. Além do teatro, fiz aulas de dança, música e pintura e foi nesse mundo das artes que muitas das minhas habilidades foram desenvolvidas. Essa base acabou sendo um suporte muito importante porque, enquanto eu vivia esse mundo criativo, o dia a dia na escola trazia desafios que eu ainda não entendia bem. Como eu só tive o diagnóstico de dislexia no final do Ensino Médio, passei a maior parte do tempo tentando me adaptar do meu jeito.
Dislexia e a descoberta do aprender
No começo da alfabetização eu não sentia tanta dificuldade, mas as coisas mudaram quando a leitura passou a ser a base de tudo, lá pela quarta ou quinta série. Enquanto parecia que para os outros a leitura apenas “fluía”, para mim cada parágrafo era uma grande esforço consciente. Com o tempo fui desenvolvendo minhas estratégias para me adaptar. Juntei todas as minha habilidades artísticas com facilidade que eu sempre tive em lógica e matemática para conseguir ler com mais sentido. Eu usava a lógica para encontrar a estrutura do texto e a imaginação para visualizar as cenas na minha cabeça.
Eu não sabia na época, mas estava desenvolvendo a minha metacognição. Estava aprendendo a entender como o meu pensamento funcionava e criando ferramentas para gerenciar minha própria mente.
No entanto, minha dificuldade não era só na leitura, mas também em expressar o que eu já sabia. Eu tinha a sensação o conhecimento estava todo dentro da minha cabeça, mas ele não estava em formato de palavras. Parecia que a informação estava salva em um “outro idioma” mental. Eu sabia o conteúdo, eu sabia dizer se algo estava certo ou errado, mas na hora de falar ou escrever, eu sentia que não conseguia acessar a língua portuguesa para explicar aquilo.
Tanto que, na escola, minha estratégia era conversar com as minhas amigas e explicar a matéria do meu jeito e elas iam me ajudando a traduzir aquilo para uma linguagem que eu pudesse usar na prova. Essa dificuldade de colocar o pensamento no papel só foi destravar de verdade mais tarde, nos dois anos de cursinho pré-vestibular.
Cursinho, autoconhecimento e comunicação
Depois que saí da escola, fiz dois anos de cursinho, e esse período foi um divisor de águas. Foi ali que eu realmente aprendi a estudar por conta própria. Como eu queria cursos concorridos na área de artes e cinema, precisei amadurecer minha forma de estudar, aprender a ter autodisciplina e a priorizar o que era mais importante.
Nessa época, fiz alguns cursos voltados para autoconhecimento e comunicação que foram essenciais. Eles me deram a chave para entender que o estudo é, acima de tudo, uma forma de comunicação: quando eu entendo algo, aquilo precisa fazer um sentido interno para que eu consiga transmitir depois.
Com essa base, tive uma professora de redação que fechou o ciclo perfeitamente. Ela me ensinou a enxergar a escrita não como uma obrigação escolar, mas como uma extensão dessa comunicação. Quando entendi que escrever era, na verdade, eu “falando” com alguém, tudo mudou. Aquela barreira de não conseguir acessar a língua portuguesa começou a cair, e eu aprendi a organizar meu pensamento de um jeito que fizesse sentido para quem estava lendo.
Ciências Sociais e o desejo de entender o mundo
No final do segundo ano de cursinho, eu já me sentia uma pessoa tão diferente que a minha perspectiva mudou. Eu já estava imersa há um tempo no mundo do autoconhecimento e da aprendizagem, tentando entender como o indivíduo funcionava e como ele aprendia. Mas percebi que não bastava entender o indivíduo de forma isolada; eu precisava compreender as estruturas que o cercam.
Foi por isso que escolhi as Ciências Sociais na UNICAMP. Eu queria esse pilar para entender como a sociedade, a cultura e o meio influenciam quem nós somos.
Muita gente estranhou: “Como você vai fazer um curso que é pura leitura se você tem dislexia?”. Mas eu estava decidida. Eu não deixaria a leitura atrapalhar o meu desejo de entender o mundo.
Fiz o bacharelado e a licenciatura e, embora tenha sido muito desafiador, usei todas as estratégias que eu mesma tinha desenvolvido. Eu era extremamente atenta nas aulas, refinava minha escuta e transformava o conteúdo em anotações que faziam sentido para o meu jeito de pensar.
Eu já sabia que não seguiria a carreira acadêmica tradicional. Meu objetivo era unir esse entendimento da sociedade com o lado educacional. Entender que somos seres sociais me deu o suporte necessário para o que eu faço hoje: um atendimento que não olha só para a dificuldade técnica, mas para a pessoa inteira e para o mundo onde ela vive.
O Encontro com a Neuropsicopedagogia
Depois que terminei as Ciências Sociais, fiz uma especialização em Diversidade e Inclusão, que fez muito sentido para mim por conectar a educação, a sociedade e até as artes. Mas ainda me perguntava “Como é que eu vou juntar tudo isso agora?”.
O grande “estalo” veio quando eu descobri a Neuropsicopedagogia. Percebi que a Neuropsicopedagogia era a ciência que permitia unir as peças que antes pareciam soltas. Ao concluir a pós-graduação, entendi que não precisava escolher entre a arte, o social, o autoconhecimento ou a lógica. Hoje, no meu trabalho não ofereço apenas técnicas de estudo; ofereço um ecossistema de ferramentas que criei para ajudar o outro na prática. Utilizo a base da Neuropsicopedagogia Clínica para avaliar e intervir nas dificuldades de aprendizagem, mas sempre aliada ao conhecimento da sociedade. Entendo que cada pessoa tem vivências e contextos diferentes, e que isso afeta diretamente a forma como ela aprendeu a estudar e a se enxergar. Somado a isso, trago o autoconhecimento e a minha base artística para desenvolver habilidades com um olhar de acolhimento.
Tudo o que faço é movido por um raciocínio investigativo para buscar o sentido das coisas e incentivar meus pacientes a descobrirem o mundo com essa mesma curiosidade. Afinal, acredito profundamente que entender como o cérebro funciona não é sobre encontrar uma limitação, e sim sobre finalmente descobrir o seu próprio manual de instruções.