Por que é tão difícil lidar com as emoções?

Lidar com as emoções é um desafio que muitas pessoas enfrentam diariamente. Mas por que isso acontece?

A resposta é simples: porque nunca nos ensinaram a fazer isso de forma adequada. Muitas pessoas acreditam que lidar com as emoções significa não sentir, bloquear os sentimentos ou fazê-los desaparecer rapidamente. E faz sentido que pensem assim. Desde pequenos, ouvimos frases como “engole o choro”, “pare de drama” ou “isso não é motivo para ficar bravo”. Essas mensagens nos ensinaram a reprimir nossas emoções, não a regulá-las.

O que é realmente lidar com as emoções?

O que chamamos de “lidar com as emoções” é o que a neurociência denomina regulação emocional. Para compreender esse processo, precisamos conhecer duas áreas fundamentais do cérebro: a amígdala e o córtex pré-frontal.

A amígdala funciona como a geradora de emoções. Ela é a principal responsável por gerar emoções como medo, alegria, raiva e tristeza, além de determinar a intensidade dessas emoções e avaliar se são positivas ou negativas (o que chamamos de valência emocional). É a amígdala que faz você sentir aquele frio na barriga, o coração acelerado ou a raiva intensa. Estudos de neuroimagem mostram que a amígdala é uma região subcortical envolvida em vigilância, atenção e aprendizado sobre sinais biologicamente relevantes, incluindo expressões faciais de emoção.

O córtex pré-frontal, por outro lado, funciona como a cabine de controle. É a área do cérebro relacionada ao controle cognitivo, pensamento, tomada de decisões e autodirecionamento. É como se fosse a nossa parte consciente que nos permite refletir, planejar e escolher como agir. Pesquisas demonstram que diferentes regiões do córtex pré-frontal desempenham papéis específicos na regulação emocional: o córtex pré-frontal ventrolateral está envolvido em processos de linguagem, o córtex pré-frontal dorsolateral em memória de trabalho, e o córtex pré-frontal ventromedial na atribuição de estados mentais e na modulação direta da atividade da amígdala.

Entendendo a Regulação Emocional

Regulação emocional não é fazer a amígdala parar de gerar emoções. É desenvolver a habilidade de ativar o córtex pré-frontal para refletir sobre o que está acontecendo, ter autodirecionamento e tomar decisões conscientes. Quando conseguimos ativar o córtex pré-frontal e fazer esse processo de reflexão e autodirecionamento, o que ocorre é a modulação da atividade da amígdala. É como se tivéssemos saído do piloto automático emocional para ir para a cabine de controle, onde conseguimos ter mais consciência e escolha sobre nossas respostas.

Estudos de neuroimagem funcional revelam que durante a regulação emocional há uma conectividade dinâmica entre regiões pré-frontais e a amígdala. Especificamente, a regulação emocional envolve a modulação de vias entre o córtex pré-frontal ventromedial e a amígdala, bem como entre a amígdala e outras regiões pré-frontais. Essa interação entre sistemas cerebrais de geração e regulação emocional é fundamental para o controle cognitivo das emoções.

É importante esclarecer alguns mitos. Regulação emocional não é:

  • Não sentir emoções
  • Nunca se abalar
  • Estar sempre calmo
  • Controlar tudo o tempo todo
  • Ser forte e não demonstrar nada

Regulação emocional é:

  • Perceber o que está sentindo
  • Nomear as emoções
  • Entender de onde elas vêm
  • Escolher como responder em vez de apenas reagir
  • Usar estratégias para lidar com elas

A literatura científica identifica diferentes estratégias de regulação emocional que podem ser utilizadas em diferentes momentos do processo emocional. Entre as mais estudadas estão a reavaliação cognitiva (mudar a interpretação de uma situação para alterar seu impacto emocional), o deslocamento atencional (direcionar a atenção para aspectos diferentes da situação) e a modulação da resposta (influenciar as respostas comportamentais, fisiológicas ou experienciais à emoção). Pesquisas mostram que a reavaliação cognitiva, especialmente quando focada no estímulo emocional ou na tomada de perspectiva, tende a ser particularmente eficaz na modificação de respostas emocionais.

Regulação Emocional é uma habilidade que pode ser aprendida

Quando crescemos ouvindo “engole o choro” e “para de drama”, aprendemos a reprimir, não a regular. E, como você provavelmente já percebeu, não é possível reprimir emoções indefinidamente. Elas sempre acabam explodindo em algum momento. A boa notícia é que você pode aprender a regular suas emoções agora, independentemente da sua idade.

Evidências científicas demonstram que estratégias de regulação emocional podem ser ensinadas e aprendidas através de intervenções estruturadas. Terapias como a Terapia Comportamental Dialética (DBT), a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), a Terapia Focada nas Emoções e a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) incluem módulos específicos para ensinar habilidades de regulação emocional. Estudos mostram que intervenções focadas em regulação emocional produzem efeitos significativos, com tamanhos de efeito consideráveis na melhora da capacidade de regulação emocional dos participantes.

O primeiro passo é parar de se perceber como refém das emoções. As emoções não são inimigas. Elas não são algo ruim que precisamos evitar ou diminuir a qualquer custo. As emoções são necessárias e existem para nos dar informações importantes sobre o que está acontecendo ao nosso redor, sobre nossas necessidades, nossos limites e o que é importante para nós. Portanto, o primeiro passo da regulação emocional é aceitar que as emoções existem e aprender a ouvir o que elas têm a dizer. Isso envolve desenvolver capacidades emocionais (como identificar emoções e fazer automonitoramento emocional), capacidades cognitivas (incluindo regulação atencional e flexibilidade cognitiva) e capacidades comportamentais e sociais (como ativação comportamental e habilidades de comunicação).

É importante ter expectativas realistas. Aprender a se regular não significa que você nunca mais vai se desregular, agir de forma intensa ou nunca mais vai precisar de ajuda. Significa que você vai conseguir, aos poucos, fazer o exercício consciente de ativar sua mente reflexiva e ir lidando com as situações de forma mais adaptativa.

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