O Messi é autista?

Toda vez que o Messi entra em alta na mídia, como acontece agora, em plena Copa do Mundo, as redes sociais resgatam uma velha especulação: “Será que o Messi é autista?”.

Geralmente, as pessoas tentam justificar essa teoria com vídeos curtos onde ele parece mais quieto em entrevistas, exibe um olhar distante ou tem reações mais aleatórias e espontâneas fora de contexto. O próprio jogador já desmentiu esse boato publicamente diversas vezes, mas o mito insiste em voltar.

Esse fenômeno revela um comportamento social muito comum: a dificuldade de compreender a introversão como um traço de personalidade saudável e a tendência de confundi-la diretamente com o autismo, que é um transtorno do neurodesenvolvimento.

Entendendo a introversão e a extroversão

Culturalmente, vivemos em uma sociedade que supervaloriza a extroversão. Quem possui um perfil mais comunicativo e expansivo é visto como o “padrão correto”, enquanto a pessoa mais introspectiva (aquela com um perfil que a leva a focar no seu mundo interno e preferir o silêncio) é frequentemente lida como alguém que tem um “problema a ser corrigido”.

A introversão e a extroversão são traços de personalidade, e personalidade não é algo vago, subjetivo ou “apenas um jeitinho de ser”. Personalidade tem bases neurobiológicas concretas. Estudos de neuroimagem mostram que traços como introversão e extroversão estão associados a diferenças mensuráveis na estrutura cerebral, na conectividade entre redes neurais e nos padrões de ativação de diferentes áreas do cérebro.

Figura 2 – Diferenças regionais no volume de massa cinzenta entre indivíduos extrovertidos (vermelho) e introvertidos (verde)
Fonte: Forsman et al. (2009)

Isso significa que a forma como uma pessoa processa estímulos sociais, regula sua energia e responde ao ambiente tem raízes no funcionamento do seu sistema nervoso.

Pessoas introvertidas:
Demandam mais energia de processamento em interações sociais longas e encontram no tempo sozinhas uma forma confortável de autorregulação;
Sentem-se mais confortáveis em ambientes com menos estímulos e interações em grupos menores;
Costumam adotar uma postura mais reservada ou quieta em situações sociais, especialmente com desconhecidos;
Possuem um repertório funcional de comunicação social, mas preferem selecionar onde e quando vão usá-lo.

Esse modo de agir não causa prejuízo funcional. A pessoa que funciona de forma introspectiva consegue ler sinais sociais, manter conversas recíprocas, desenvolver relacionamentos e adaptar seu comportamento a diferentes contextos, ela apenas prefere não fazer isso o tempo todo porque o custo de resposta metabólica e atencional é maior.

Para compreender onde termina o traço de personalidade e onde começa a necessidade de suporte clínico, precisamos olhar para os critérios científicos.

O que é o autismo?

O autismo é um transtorno do neurodesenvolvimento que requer a presença de critérios diagnósticos específicos. Para receber um diagnóstico de TEA, uma pessoa precisa apresentar:

Déficits persistentes em comunicação e interação social em três áreas:
Dificuldades na reciprocidade socioemocional (por exemplo, dificuldade em manter conversas de ida e volta, compartilhar interesses ou emoções)
Dificuldades em comportamentos comunicativos não verbais (como integração pobre entre comunicação verbal e não verbal, anormalidades no contato visual e linguagem corporal)
Dificuldades em desenvolver, manter e compreender relacionamentos

E também pelo menos dois dos seguintes comportamentos restritos e repetitivos:
Movimentos motores, uso de objetos ou fala estereotipados ou repetitivos
Insistência em rotinas, padrões ritualizados de comportamento
Interesses altamente restritos e fixos
Hiper ou hiporreatividade a estímulos sensoriais

Esses sintomas devem estar presentes desde a infância, causar prejuízo funcional significativo e não serem melhor explicados por outra condição. O diagnóstico é clínico, feito por profissionais especializados através de avaliação detalhada da história de desenvolvimento e observação do comportamento.

Introversão e autismo: onde está a real diferença?

A confusão entre esses dois cenários acontece porque a nossa sociedade tende a simplificar comportamentos complexos. Como a pressão cultural dita que a extroversão é o padrão ideal, qualquer comportamento mais reservado acaba sendo rotulado. No entanto, a grande diferença não está no “gostar” ou “não gostar” de interagir, mas sim na mecânica do gasto de energia do cérebro.

A introversão e a extroversão dizem respeito a como a pessoa recarrega suas baterias. O indivíduo introvertido pode ser extremamente sociável e gostar de estar com pessoas, mas essa interação consome sua energia, fazendo com que ele precise de um tempo sozinho para se recuperar. Com o extrovertido ocorre o inverso: ele se sente cansado no isolamento e se retroalimenta estando em grupo.

No autismo, também existe um esgotamento severo nas interações sociais, e é aí que as pessoas se confundem. Porém, o motivo desse cansaço é completamente diferente:

No cérebro introvertido: O gasto de energia ocorre pela preferência de canais de estímulo. É uma resposta natural ao ambiente baseada em diferenças neurobiológicas no processamento de informações.

No cérebro autista: O esgotamento não é pela socialização em si, mas pelo custo cognitivo que ela exige. O autista precisa processar e decodificar a comunicação social de forma consciente e separada, decifrando expressões, tons de voz e regras implícitas que não são automáticas para ele. Na tentativa de se ajustar ao padrão esperado (o chamado mascaramento social), o cérebro opera em sobrecarga, gerando um desgaste imenso.

Desmistificando as generalizações

O grande erro das análises superficiais da internet é sempre a simplificação excessiva. A realidade clínica nos mostra que precisamos separar o cansaço energético do desejo de interagir. A extroversão não é sinônimo de ser sociável, mas sim de como o organismo recupera energia.
Por isso, precisamos quebrar dois grandes mitos:

Existe o introvertido altamente sociável: Há pessoas com um perfil introspectivo que são extremamente comunicativas, possuem ótimas habilidades sociais e adoram estar com os outros, elas apenas precisam do seu momento de isolamento depois para reabastecer a bateria.

Existe o autista com alta motivação social: Não é verdade que toda pessoa autista é isolada ou quieta. Muitos autistas buscam ativamente a interação, têm prazer na socialização e querem construir conexões. A questão deles não é o “gosto” pela troca, mas sim as barreiras no desenvolvimento e no processamento automático dessas habilidades.

É exatamente por isso que o termo utilizado é Espectro Autista. Essa palavra serve para nos lembrar que, apesar de compartilharem critérios em comum, as pessoas autistas possuem perfis de funcionamento, interesses, níveis de extroversão e habilidades práticas totalmente diferentes entre si. Não existe um padrão único.

A Importância de uma avaliação especializada

Quando figuras públicas como o Messi exibem reações mais reservadas, o público tenta criar diagnósticos rápidos. Mas essa especulação ignora que características isoladas não sustentam um diagnóstico. Identificar-se com alguns desses pontos é excelente como um questionamento inicial, um sinalizador de que pode ser válido buscar respostas, mas o fechamento de um quadro exige uma investigação minuciosa e especializada.

Discernir o custo metabólico da introversão do custo cognitivo do autismo é o que nos permite parar de generalizar de forma rasa, respeitando a individualidade de cada cérebro e acolhendo a verdadeira neurodiversidade.

Fontes consultadas:
American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, Fifth Edition, Text Revision (DSM-5-TR). 2022.
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Depue RA, Collins PF. Neurobiology of the Structure of Personality: Dopamine, Facilitation of Incentive Motivation, and Extraversion. Behavioral and Brain Sciences. 1999;22(3):491-517.
DeYoung CG, Hirsh JB, Shane MS, Papademetris X, Rajeevan N, Gray JR. Testing Predictions from Personality Neuroscience: Brain Structure and the Big Five. Psychological Science. 2010;21(6):820-828.
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