O termo “transtorno” é o mesmo, mas o funcionamento pode ser diferente: entenda os diferentes tipos de transtornos
Quando falamos sobre saúde mental, é comum ouvirmos a palavra “transtorno” para descrever diversas condições. Mas você sabia que nem todos os transtornos são iguais? Apesar de todos estarem listados no DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), eles têm origens e naturezas muito diferentes. E entender essas diferenças é fundamental para compreender o que podemos ou não mudar em nós mesmos.
Neste texto, vou explicar de forma simples os principais grupos de transtornos e mostrar quais deles a Neuropsicopedagogia estuda e pode avaliar. Também quero desmistificar a ideia de que “ter um transtorno” significa necessariamente carregar algo permanente e imutável.
Os diferentes grupos de transtornos
O DSM organiza os transtornos mentais em diferentes categorias, e cada uma delas tem características próprias:
Transtornos do neurodesenvolvimento
Esses são transtornos que têm origem no desenvolvimento do cérebro. Eles aparecem cedo na vida (geralmente na infância) e estão relacionados a diferenças na forma como o cérebro se desenvolve. Fazem parte deste grupo:
TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade)
Autismo (TEA – Transtorno do Espectro Autista)
Dislexia e outros transtornos de aprendizagem
Deficiência intelectual
Transtornos da comunicação e motores
Esses transtornos têm uma base neurobiológica, ou seja, há diferenças reais no funcionamento cerebral. Não é algo que “passa” ou que a pessoa “deixa de ter”, mas sim características que fazem parte de como o cérebro dessa pessoa funciona. No entanto, com intervenções adequadas, a pessoa pode desenvolver estratégias e habilidades que melhoram significativamente sua qualidade de vida.
(E as Altas Habilidades? Por que não aparecem aqui?)
Você pode ter notado que Altas Habilidades (ou superdotação/dotação) não apareceu na lista acima. Isso acontece porque altas habilidades não é considerado um transtorno, e sim uma condição do neurodesenvolvimento.
Altas habilidades se refere a pessoas que possuem habilidades cognitivas significativamente acima da média da população (geralmente com QI igual ou superior a 130), ou talentos excepcionais em áreas específicas como música, artes, matemática ou outras. Essas pessoas apresentam um potencial cognitivo elevado que, quando bem desenvolvido, pode se transformar em talentos e realizações notáveis.
Diferente dos transtornos do neurodesenvolvimento, que são caracterizados por déficits ou dificuldades que causam prejuízos funcionais, as altas habilidades representam um funcionamento cognitivo superior. Por isso, não entram na categoria de “transtornos”.
No entanto, é importante destacar que pessoas com altas habilidades podem enfrentar desafios específicos, como dificuldades de adaptação social, perfeccionismo excessivo, ansiedade ou até mesmo baixo desempenho escolar quando não recebem estímulos adequados. Além disso, é possível que uma pessoa tenha dupla excepcionalidade, ou seja, altas habilidades junto com um transtorno do neurodesenvolvimento (como TDAH, autismo ou dislexia). Nesses casos, os talentos podem acabar sendo ofuscados pelas dificuldades, tornando a identificação mais complexa.
A Neuropsicopedagogia também pode avaliar e trabalhar com pessoas com altas habilidades, ajudando a identificar seus potenciais e a desenvolver estratégias para que possam aproveitar ao máximo suas capacidades.
Transtornos de humor e outros com base biológica
Alguns transtornos têm uma base biológica relacionada ao funcionamento de neurotransmissores ou outros sistemas do corpo. O exemplo mais claro é o Transtorno Bipolar, que envolve alterações no funcionamento cerebral que causam oscilações de humor entre episódios de mania e depressão.
Esses transtornos geralmente precisam de acompanhamento médico e, muitas vezes, medicação para regular o funcionamento do organismo.
Transtornos descritivos: ansiedade e depressão
Aqui está um ponto importante que muitas pessoas não sabem: quando alguém recebe o diagnóstico de Transtorno de Ansiedade Generalizada ou Transtorno Depressivo, não significa necessariamente que essa pessoa “tem algo” no cérebro causando isso.
Esses são chamados de transtornos descritivos porque descrevem um estado em que a pessoa se encontra. A ansiedade ou a depressão podem ser consequências de diversas situações: traumas, estresse crônico, falta de recursos emocionais para lidar com desafios, experiências difíceis não processadas, entre outros.
E aqui vem a boa notícia: é possível deixar de ter esses transtornos. Com terapia, mudanças no estilo de vida, desenvolvimento de habilidades emocionais e, quando necessário, medicação temporária, muitas pessoas conseguem superar completamente quadros de ansiedade e depressão.
Transtornos de personalidade
Os transtornos de personalidade (como Borderline, Transtorno de Personalidade Antissocial, Narcisista, entre outros) também são, em grande parte, descritivos. Eles descrevem padrões de comportamento e formas de se relacionar que a pessoa desenvolveu ao longo da vida, especialmente em resposta às suas experiências.
Por exemplo, o Transtorno de Personalidade Borderline está frequentemente relacionado a histórias de infância marcadas por falta de afeto, insegurança, traumas ou negligência emocional. Pessoas que passam por essas experiências podem desenvolver certos padrões de comportamento como forma de proteção ou sobrevivência emocional.
Mas é importante entender: nem toda pessoa que passa por uma infância difícil desenvolve um transtorno de personalidade. E, da mesma forma, pessoas com transtornos de personalidade podem mudar esses padrões com tratamento adequado, especialmente terapias específicas como a Terapia Comportamental Dialética (DBT).
O mesmo vale para o Transtorno Opositor Desafiador (TOD), frequentemente visto em crianças e adolescentes. Muitas vezes, esse comportamento desafiador é uma resposta a um ambiente familiar ou escolar, e pode ser modificado com intervenções adequadas.
A importância de entender essas diferenças
Compreender que existem diferentes tipos de transtornos é libertador. Significa entender que:
Nem tudo é permanente: Transtornos descritivos como ansiedade, depressão e até transtornos de personalidade podem ser superados ou significativamente melhorados com tratamento adequado.
Ter um transtorno do neurodesenvolvimento não é uma sentença: Mesmo sendo condições neurobiológicas, com as intervenções certas, as pessoas podem desenvolver estratégias e ter uma vida plena e de qualidade.
O diagnóstico é uma ferramenta, não um rótulo: Entender o que está acontecendo ajuda a buscar as intervenções corretas e a se compreender melhor, não a se limitar.
Cada pessoa é única: Mesmo dentro de um mesmo diagnóstico, cada pessoa tem suas particularidades, forças e desafios.
O Papel da Neuropsicopedagogia
A Neuropsicopedagogia tem como foco principal os transtornos do neurodesenvolvimento.
No entanto, é fundamental que eu também compreenda outros transtornos, especialmente aqueles que podem ter sintomas parecidos com os do neurodesenvolvimento. Um exemplo clássico é o Transtorno Bipolar, que pode apresentar sintomas muito semelhantes ao TDAH, como impulsividade, dificuldade de concentração e agitação.
Por isso, durante minhas avaliações, faço um rastreio de outros possíveis transtornos. Isso significa que observo sinais e sintomas que podem indicar outras condições além dos transtornos do neurodesenvolvimento. Quando identifico esses sinais, encaminho a pessoa para os profissionais adequados.
É importante esclarecer: quem fecha o diagnóstico é sempre o médico (psiquiatra ou neurologista), mas fazer uma avaliação detalhada e aprofundada é fundamental para o processo diagnóstico. O médico não tem acesso aos instrumentos e testes específicos que utilizamos, nem o tempo necessário para fazer essa investigação minuciosa das funções cognitivas e de aprendizagem. Por isso, a avaliação neuropsicopedagógica é uma etapa essencial: ela fornece ao médico informações detalhadas e dados objetivos que ele precisa para fechar o diagnóstico de forma precisa. Sem essa avaliação completa, muitos aspectos importantes podem passar despercebidos.
A avaliação neuropsicopedagógica é um processo detalhado que investiga: Funções cognitivas (atenção, memória, raciocínio); Funções executivas (planejamento, organização, controle inibitório); Habilidades de leitura, escrita e matemática; Aspectos emocionais e comportamentais; Histórico de desenvolvimento.
Com base nessa avaliação, consigo identificar o perfil de funcionamento da pessoa e, quando necessário, encaminhar para diagnóstico médico. Depois, trabalho no processo de intervenção, ajudando a pessoa a desenvolver estratégias para lidar com seus desafios e potencializar suas habilidades.
Fontes consultadas:
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