Entendendo a Dislexia

Você sabia que cerca de 10% da população mundial apresenta dislexia? Apesar de ser uma condição bastante comum, ainda existe muita confusão sobre o que ela realmente é e como afeta a vida das pessoas, especialmente na fase adulta.

A dislexia é uma condição neurobiológica que afeta principalmente a capacidade de ler e escrever com fluência e precisão. Diferente do que muita gente pensa, não tem nada a ver com inteligência! Pessoas com dislexia podem ser extremamente inteligentes, criativas e talentosas em diversas áreas como matemática, ciências, artes e até mesmo na escrita criativa.

O que acontece no cérebro durante a leitura?

Para entender a dislexia, primeiro precisamos entender como funciona o processo de leitura e escrita. O nosso cérebro opera por meio de dois caminhos fundamentais:

✓ Codificação: É o processo de criar o código, usado principalmente na escrita. Você ouve ou pensa em uma palavra e precisa transformar esses sons (fonemas) em letras escritas (grafemas). É, literalmente, traduzir o que você escuta ou pensa para o papel.

✓ Decodificação: É o processo inverso, essencial para a leitura. Consiste em transformar as letras escritas (grafemas) de volta em sons (fonemas). Por exemplo, quando você vê a palavra “casa”, seu cérebro reconhece cada letra, associa ao som correspondente (C-A-S-A) e junta esses sons para formar e compreender a palavra completa.

Pesquisas com neuroimagem mostram que, em pessoas sem dislexia, a leitura ativa principalmente áreas do hemisfério esquerdo do cérebro, incluindo regiões frontais e temporais responsáveis pelo processamento fonológico. Já em pessoas com dislexia, essas áreas funcionam de forma diferente, e o cérebro precisa usar outras regiões para compensar, tornando o processo de leitura muito mais trabalhoso e cansativo.

A raiz da dificuldade: o processamento fonológico

A principal dificuldade na dislexia está no que chamamos de processamento fonológico. Isso significa que o cérebro tem dificuldade em identificar, manipular e trabalhar com os sons da fala. É como se houvesse uma falha na conexão entre o som das palavras e as letras que as representam.
Imagine que você está tentando sintonizar uma estação de rádio, mas o sinal não está muito bom.

Você consegue ouvir, mas com interferência, e precisa se esforçar muito mais para entender o que está sendo dito. É mais ou menos assim que funciona o processamento fonológico na dislexia.

Essa dificuldade fonológica interfere diretamente na capacidade de fazer o mapeamento entre grafemas e fonemas, que é essencial para aprender a ler e escrever. Por isso, mesmo com inteligência normal ou acima da média, a pessoa com dislexia enfrenta obstáculos significativos na alfabetização.

Como a dislexia se manifesta?

Os sinais da dislexia podem variar bastante de pessoa para pessoa e também mudam ao longo da vida. Na infância, as dificuldades costumam ser mais evidentes durante a alfabetização, mas muitos adultos continuam apresentando características específicas.

Em crianças e adolescentes:

✓ Dificuldade para aprender a ler e escrever
✓ lenta, trabalhosa e com muitos erros
✓ Dificuldade para decodificar palavras novas ou desconhecidas
✓ Problemas com ortografia e muitos erros de escrita
✓ Dificuldade para ler palavras pequenas como “que”, “de”, “em”
✓ Podem começar a ler uma palavra corretamente e depois “chutar” o resto (por exemplo, ler “trevo” como “trem”)
✓ Medo ou recusa de ler em voz alta

Em adultos:

✓ Leitura lenta e cansativa, mesmo que consigam decodificar as palavras
✓ Necessidade de reler o mesmo trecho várias vezes para compreender
✓ Dificuldade para fazer inferências a partir de textos escritos
✓ Erros frequentes de ortografia
✓ Dificuldade com palavras longas ou com muitas sílabas
✓ Tendência a evitar atividades que exigem leitura ou escrita
✓ Preferência por audiolivros, vídeos ou outras formas de acessar informação que não sejam pela leitura

Estudos mostram que adultos com dislexia utilizam uma estratégia visual diferente ao ler: fazem pausas mais longas, movimentos oculares mais curtos e um número maior de movimentos atípicos durante a leitura, o que torna o processo muito mais trabalhoso.
É importante destacar que a dislexia NÃO é caracterizada por inversão de letras ou leitura espelhada, como muita gente acredita. Esse é um mito bastante comum!

A dislexia tem base genética

A dislexia tem uma forte base genética e hereditária. Aproximadamente 40% dos irmãos, filhos ou pais de uma pessoa com dislexia também apresentarão a condição. Ela pode ser leve ou severa, afeta pessoas no mundo todo e pode persistir por toda a vida.

O papel da Neuropsicopedagogia

É aqui que entra o trabalho da neuropsicopedagogia! Como neuropsicopedagoga, trabalho especificamente com adultos que apresentam dislexia, ajudando-os a desenvolver estratégias compensatórias, fortalecer habilidades de leitura e escrita, e principalmente, a entender melhor como seu cérebro funciona.

Muitos adultos com dislexia passaram a vida inteira se sentindo “burros” ou incapazes, quando na verdade apenas processam a informação escrita de uma forma diferente. O trabalho neuropsicopedagógico busca não apenas melhorar as habilidades de leitura e escrita, mas também resgatar a autoestima e mostrar que é possível ter sucesso acadêmico e profissional mesmo com dislexia.

Intervenções que trabalham a consciência fonológica (a capacidade de identificar e manipular os sons da fala) têm mostrado resultados muito positivos, ajudando pessoas com dislexia a desenvolver ganhos significativos na leitura.


Fontes consultadas:
Peterson RL, Pennington BF. Developmental Dyslexia. Lancet. 2012;379(9830):1997-2007.
Ashburn SM, Flowers DL, Napoliello EM, Eden GF. Cerebellar function in children with and without dyslexia during single word processing. Human Brain Mapping. 2020;41(1):120-138.
American Academy of Ophthalmology, American Academy of Pediatrics. Joint Statement: Learning Disabilities, Dyslexia, and Vision. 2014.
Franzen L, Stark Z, Johnson AP. Individuals With Dyslexia Use a Different Visual Sampling Strategy to Read Text. Scientific Reports. 2021;11:6449.
Brèthes H, Cavalli E, Denis-Noël A, et al. Text Reading Fluency and Text Reading Comprehension Do Not Rely on the Same Abilities in University Students With and Without Dyslexia. Frontiers in Psychology. 2022;13:857165.


Você sabia que eu tenho dislexia?

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