TDAH e dificuldade de direcionamento

O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) não é apenas uma questão de ser “desatento” ou “agitado”, como muitos ainda pensam. O que acontece no cérebro de uma pessoa com TDAH é um atraso no desenvolvimento de algumas funções chamadas de funções executivas.

Essas funções são responsáveis por nos ajudar a nos autodirigir: ou seja, perceber o que está acontecendo conosco, entender o que precisamos fazer, planejar, direcionar a atenção, conter impulsos, regular emoções e manter o esforço em uma tarefa.

Quando há um atraso nesse desenvolvimento, a pessoa fica mais vulnerável a agir no piloto automático, sem conseguir gerenciar muito bem suas próprias ações, pensamentos, sentimentos e comportamentos.

Esse atraso afeta diversas áreas da vida da pessoa. Vamos entender algumas delas

Direcionamento da atenção

No TDAH, a dificuldade não está exatamente em “prestar atenção”, mas em dirigir a atenção de forma intencional.

Isso significa que a pessoa pode até focar intensamente em algo que desperte muito interesse, mas terá dificuldade para direcionar sua atenção para tarefas que exigem esforço voluntário, mesmo que sejam importantes.

É importante lembrar que essa dificuldade de direcionamento da atenção é uma entre várias dificuldades de direcionamento no TDAH. A pessoa também pode ter dificuldades para direcionar o pensamento, o comportamento, as emoções e a motivação.

Direcionamento do pensamento e hiperatividade

A hiperatividade, muito associada ao TDAH, nem sempre aparece apenas como movimentação física excessiva.

Ela também pode se manifestar como uma hiperatividade mental: pensamentos acelerados, dificuldade para “parar” a mente, sensação de estar sempre pensando em várias coisas ao mesmo tempo.

Essa agitação interna é, na verdade, mais uma dificuldade de dirigir o pensamento de maneira organizada e focada.

Direcionamento das emoções: autorregulação emocional

A autorregulação emocional também está conectada às funções executivas. É a capacidade de perceber o que estamos sentindo, nomear a emoção, entender de onde ela vem e conseguir escolher uma resposta adequada para a situação.

No TDAH, há uma tendência maior a reagir aos sentimentos, sem conseguir “pausar” para refletir.

Porém, é importante ressaltar: ninguém nasce sabendo regular emoções. A capacidade de gerenciar emoções é construída ao longo da vida, por meio de vivências e ensinamentos.

Muitas vezes, mesmo pessoas sem TDAH têm dificuldade com a autorregulação emocional, justamente porque não foram ensinadas a lidar com seus sentimentos.

Portanto, ter dificuldade de regulação emocional não é exclusivo do TDAH, embora a vulnerabilidade a essa dificuldade seja maior

Direcionamento dos impulsos: impulsividade

Outra manifestação bastante comum no TDAH é a impulsividade.

A pessoa sente algo, pensa algo, ou tem uma vontade, e já age sem conseguir refletir sobre as consequências.

Essa dificuldade também é resultado da falha nas funções executivas que nos permitem pausar, avaliar a situação e fazer escolhas mais conscientes.

Mas, assim como no caso da regulação emocional, o controle de impulsos também pode ser ensinado e desenvolvido.

Vivências que estimulem a reflexão e o autocontrole desde a infância ajudam muito nesse processo, com ou sem TDAH.

Direcionamento da motivação

Um aspecto muitas vezes pouco falado, mas extremamente importante no TDAH, é a dificuldade de direcionar a motivação.

A pessoa sente o desejo de fazer algo, mas tem dificuldade para iniciar e manter o esforço em tarefas que exigem mais disciplina e menos gratificação imediata.

Esse comportamento é muitas vezes interpretado como “preguiça” ou “falta de interesse”, mas na verdade está relacionado a uma dificuldade interna em organizar a motivação e manter a ação no que precisa ser feito.

Assim como as outras áreas, essa também pode ser trabalhada e desenvolvida, respeitando o ritmo de cada pessoa e as estratégias que melhor funcionam para ela.

TDAH e autoestima

O impacto desse conjunto de dificuldades na autoestima pode ser muito grande.

Se uma pessoa com TDAH cresce em ambientes onde é constantemente criticada, onde suas capacidades não são reconhecidas ou onde não recebe suporte para desenvolver habilidades, ela pode começar a construir uma imagem negativa de si mesma.

Afinal, em comparação com os outros, ela sente que “não consegue” fazer coisas que parecem simples para todo mundo.

Isso faz com que seja bastante comum encontrar pessoas com TDAH que desenvolveram uma autoestima fragilizada, principalmente quando não receberam diagnóstico e apoio na infância.
Elas passam a enxergar apenas suas dificuldades e esquecem de reconhecer seus talentos, forças e valores.
Por isso, o trabalho de intervenção (seja na infância ou na vida adulta) não pode ser apenas sobre corrigir dificuldades, mas também sobre ajudar a pessoa a se enxergar além do TDAH, reconhecendo suas qualidades, habilidades e potenciais.


Autoconhecimento e desenvolvimento de habilidades

Mais do que focar apenas no diagnóstico de TDAH, é essencial entender como essas dificuldades aparecem na vida de cada pessoa.

Até mesmo quem não tem TDAH pode se identificar com algumas dessas características, simplesmente porque não teve a oportunidade ou o treino para desenvolver certas habilidades.
Por isso, o foco deve estar no comportamento que está trazendo dificuldades e no que pode ser feito para promover mudanças reais.

Essa é a base do meu trabalho: seja com pessoas que têm diagnóstico de TDAH, seja com pessoas que não têm, eu observo as habilidades que precisam ser desenvolvidas e ajudo a construir novos caminhos para lidar melhor com os desafios.

O autoconhecimento é uma peça-chave nesse processo.

Ao entender melhor seu próprio funcionamento, suas emoções, impulsos, pensamentos e motivações, a pessoa se torna mais capaz de se direcionar conscientemente para onde deseja chegar.
E o desenvolvimento de habilidades não é um processo imediato, é um caminho de construção, aprendizado e fortalecimento.

Com apoio adequado, autocompaixão e estratégias certas, é totalmente possível transformar essas dificuldades em novos potenciais.

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