Entendendo o Autismo

O Transtorno do Espectro Autista (TEA), mais conhecido como autismo, é uma condição neurobiológica que afeta a forma como uma pessoa se comunica, interage socialmente e percebe o mundo ao seu redor. Apesar de ser frequentemente associado apenas à infância, o autismo é uma condição que acompanha a pessoa por toda a vida, e muitos adultos vivem sem diagnóstico, enfrentando dificuldades sem compreender suas origens.

Por que chamamos de “espectro”?

A palavra “espectro” é fundamental para entender o autismo. Ela significa que existe uma enorme variabilidade entre as pessoas autistas. Algumas podem ter dificuldades significativas na comunicação verbal e precisar de apoio intenso no dia a dia, enquanto outras podem ter habilidades linguísticas e intelectuais acima da média, mas enfrentar desafios específicos na comunicação social e na flexibilidade de pensamento.

O que acontece no cérebro?

O autismo resulta de diferenças no desenvolvimento cerebral. Não é uma doença ou algo que “está lá” no cérebro que possa ser visto em exames. É a forma como o cérebro se desenvolve ao longo do tempo que se torna diferente, começando muito cedo (ainda na gestação ou nos primeiros anos de vida).

Por isso, não existem marcadores biológicos confiáveis (como exames de sangue ou de imagem) para diagnosticar o autismo antes que as características comecem a aparecer no comportamento e no desenvolvimento. Em alguns casos, essas diferenças já ficam evidentes no início da infância; em outros, podem se tornar mais perceptíveis mais tarde, especialmente quando as demandas sociais aumentam.

É importante destacar que o autismo NÃO é causado por vacinas, estilo de criação dos pais ou fatores emocionais. Trata-se de uma condição neurobiológica com forte componente genético.

As duas áreas principais do autismo

O autismo é caracterizado por diferenças em duas áreas principais, que precisam estar presentes para que o diagnóstico seja feito:

1. Comunicação e Interação Social

Esta área envolve três aspectos fundamentais:

Reciprocidade socioemocional: Refere-se à capacidade de ter uma troca social natural e fluida com outras pessoas. Pessoas autistas podem apresentar dificuldades em iniciar ou responder a interações sociais, manter conversas com o padrão de “vai e vem” natural, ou compartilhar interesses, emoções e afetos de forma espontânea.
Por exemplo, uma pessoa autista pode ter dificuldade em perceber quando é sua vez de falar numa conversa, pode não entender piadas ou ironias, ou pode ter um jeito diferente de demonstrar interesse pelo que o outro está dizendo.

Comunicação não verbal: Envolve toda a comunicação que não usa palavras, como contato visual, expressões faciais, gestos, linguagem corporal e tom de voz. Pessoas autistas frequentemente apresentam diferenças nessa área.
Isso pode se manifestar como dificuldade em manter contato visual (ou um contato visual muito intenso e fixo), expressões faciais que não correspondem ao que estão sentindo, dificuldade em entender os gestos dos outros ou em usar gestos para se comunicar, ou uma integração pobre entre o que falam e como se expressam corporalmente.


Relacionamentos: Refere-se à capacidade de desenvolver, manter e compreender relacionamentos apropriados para diferentes contextos. Pessoas autistas podem ter dificuldade em ajustar seu comportamento a diferentes situações sociais, fazer e manter amizades, compartilhar brincadeiras imaginativas (na infância), ou podem demonstrar pouco interesse em interagir com outras pessoas.
Muitos adultos autistas relatam que sempre se sentiram “diferentes” dos colegas, que tinham dificuldade em entender as “regras não escritas” das interações sociais, ou que precisavam fazer um esforço consciente enorme para participar de situações sociais que pareciam naturais para os outros.


Um ponto importante: essas dificuldades na comunicação e interação social são muito sutis e complexas de identificar. Não é simplesmente uma questão de ser tímido ou introvertido. Uma pessoa pode ser extremamente sociável, ter amigos e até entender piadas, mas ainda assim apresentar diferenças significativas na forma como processa e responde às interações sociais.
Da mesma forma, não podemos olhar para alguém mais reservado e automaticamente pensar “essa pessoa é autista”. As características do autismo vão muito além de comportamentos superficiais que conseguimos observar casualmente.

É justamente por isso que uma avaliação profissional cuidadosa e aprofundada é fundamental. Somente através de uma investigação detalhada, que considera o histórico de desenvolvimento, observa padrões de comportamento em diferentes contextos e utiliza instrumentos específicos, é possível identificar se essas diferenças realmente configuram o autismo.


2. Padrões Restritos e Repetitivos de Comportamento, Interesses ou Atividades

Para o diagnóstico, a pessoa precisa apresentar pelo menos dois dos seguintes aspectos:

Movimentos, uso de objetos ou fala repetitivos: Podem incluir movimentos corporais repetitivos (como balançar o corpo, bater palmas de forma rítmica, girar), alinhar ou organizar objetos de forma específica, ecolalia (repetir palavras ou frases que ouviu), ou usar frases idiossincráticas (expressões próprias que só fazem sentido para a pessoa).

Necessidade de rotinas e dificuldade com mudanças: Muitas pessoas autistas precisam de rotinas previsíveis e podem ficar extremamente angustiadas com mudanças, mesmo pequenas. Isso pode incluir precisar fazer as coisas sempre da mesma forma, seguir o mesmo caminho todos os dias, comer os mesmos alimentos, ou ter rituais específicos para determinadas atividades.
Essa necessidade de previsibilidade não é “birra” ou “teimosia”, é uma característica neurológica real que traz segurança e reduz a ansiedade.

Interesses intensos e específicos: Pessoas autistas frequentemente desenvolvem interesses muito focados e intensos em tópicos específicos. Esses interesses podem ser incomuns (como ventiladores, mapas de metrô, ou datas de calendário) ou podem ser temas comuns, mas com uma intensidade e profundidade muito maiores que o esperado.
Esses interesses especiais são uma fonte importante de prazer e podem se tornar áreas de grande expertise.

Diferenças sensoriais: Muitas pessoas autistas apresentam hiper ou hipossensibilidade a estímulos sensoriais. Isso significa que podem ser extremamente sensíveis a sons, luzes, texturas, cheiros ou sabores (hipersensibilidade), ou podem ter uma resposta reduzida a esses estímulos, incluindo aparente indiferença à dor ou temperatura (hipossensibilidade).
Por exemplo, uma pessoa pode não conseguir tolerar o som de uma sirene ou a textura de certas roupas, ou pode ter fascínio visual por luzes e movimentos.

Como o autismo se manifesta ao longo da vida?

As características do autismo estão presentes desde a primeira infância, mas podem não ser totalmente evidentes até que as demandas sociais ultrapassem as capacidades da pessoa. Além disso, muitas pessoas autistas desenvolvem estratégias de compensação ao longo da vida, o que pode mascarar suas dificuldades.

Na infância:
Atraso ou diferenças no desenvolvimento da linguagem
Pouco interesse em brincadeiras sociais ou imaginativas
Dificuldade em fazer amigos
Comportamentos repetitivos evidentes
Reações intensas a mudanças de rotina
Interesses muito focados e específicos

Na adolescência e vida adulta:
As dificuldades sociais podem se tornar mais evidentes à medida que as interações sociais ficam mais complexas
Muitos adultos autistas relatam exaustão constante por tentar “parecer normal” (mascaramento social)
Dificuldade em manter relacionamentos ou empregos
Ansiedade e depressão são comuns

Um ponto importante: pessoas autistas sem deficiência intelectual ou de linguagem podem apresentar manifestações mais sutis das dificuldades, mas isso não significa que seus desafios sejam menores. Muitas vezes, essas pessoas fazem esforços imensos para mascarar suas diferenças, o que pode levar a um desgaste emocional significativo.

Condições que frequentemente acompanham o autismo

O autismo raramente vem sozinho. É comum que pessoas autistas também apresentem outras condições, que podem ser divididas em dois grupos:

Outros transtornos do neurodesenvolvimento:

Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH): Também é um transtorno do neurodesenvolvimento e frequentemente coexiste com o autismo, compartilhando algumas bases neurobiológicas.

Transtornos Específicos de Aprendizagem: Incluem dislexia (dificuldade com leitura), discalculia (dificuldade com matemática) e disgrafia (dificuldade com escrita). Essas condições são mais comuns em pessoas autistas do que na população geral, e muitas vezes passam despercebidas porque as dificuldades são atribuídas apenas ao autismo.

Transtorno do Desenvolvimento da Coordenação (TDC): Envolve dificuldades significativas com coordenação motora, equilíbrio e habilidades motoras finas (como escrever à mão ou amarrar cadarços). Muitas pessoas autistas apresentam “desajeitamento” motor que vai além do esperado.

Transtornos da Linguagem: Algumas pessoas autistas também apresentam dificuldades específicas com a estrutura da linguagem (gramática, vocabulário, compreensão), além das diferenças na comunicação social que fazem parte do próprio autismo.


Condições que surgem como consequência:

Ansiedade e Depressão: Não são parte do autismo em si, mas sim consequências frequentes de viver em um mundo que não foi feito para pessoas autistas. Muitas vezes, esses quadros se desenvolvem porque a pessoa passou anos ou décadas sem diagnóstico, sem entender por que era tão difícil fazer coisas que pareciam fáceis para os outros, enfrentando rejeição social, fracassos inexplicáveis e uma sensação constante de inadequação. Mesmo após o diagnóstico, se a pessoa não consegue acessar as intervenções e o suporte necessários, a ansiedade e a depressão podem se instalar ou se agravar. Esses são transtornos descritivos do sofrimento emocional que resulta de não ter suas necessidades compreendidas e atendidas.

Condições neurobiológicas que compartilham mecanismos com o autismo:

Epilepsia: Cerca de 20-25% das pessoas autistas também têm epilepsia, uma taxa muito maior que na população geral. A ciência tem mostrado que o autismo e a epilepsia compartilham mecanismos neurobiológicos comuns. Ambos envolvem alterações no equilíbrio entre excitação e inibição no cérebro – especificamente, um desequilíbrio entre os sistemas excitatórios (que ativam os neurônios) e inibitórios (que os acalmam). Muitos dos genes associados ao autismo também estão relacionados à epilepsia, e ambas as condições têm origem no desenvolvimento cerebral precoce. Por isso, não é que uma causa a outra, mas sim que elas frequentemente aparecem juntas porque têm raízes neurobiológicas compartilhadas. 

Problemas de sono: Entre 50% e 83% das pessoas autistas apresentam dificuldades com o sono, incluindo dificuldade para adormecer, despertares frequentes durante a noite, sono de curta duração e acordar muito cedo. A ciência tem identificado várias razões neurobiológicas para isso: alterações na produção de melatonina (o hormônio que regula o sono), mutações em genes que controlam o ritmo circadiano (nosso “relógio biológico”), e alterações em neurotransmissores como GABA, serotonina e glutamato, que são fundamentais para regular o ciclo sono-vigília. Além disso, as diferenças sensoriais do autismo (como sensibilidade a sons, luzes ou texturas) podem dificultar o relaxamento necessário para dormir. Ou seja, os problemas de sono no autismo têm uma base neurobiológica direta, não são apenas “hábitos ruins”.

O papel da Neuropsicopedagogia

Como neuropsicopedagoga especializada em adultos, trabalho tanto no processo de investigação diagnóstica quanto na intervenção com pessoas autistas.

A investigação do diagnóstico o quanto antes é fundamental. Quando uma pessoa compreende que é autista, ela finalmente consegue entender por que sempre se sentiu diferente, por que certas situações eram tão desafiadoras, e pode começar a fazer as intervenções necessárias para ter uma vida com mais qualidade. Muitos adultos autistas passaram a vida inteira se sentindo inadequados, sem entender por que as coisas que pareciam fáceis para os outros eram tão difíceis para eles. O diagnóstico, mesmo que tardio, pode trazer um enorme alívio e autocompreensão.

O trabalho terapêutico de intervenção neuropsicopedagógica com adultos autistas foca em:

Compreender o próprio perfil de funcionamento
Desenvolver estratégias para situações sociais desafiadoras
Trabalhar a organização e o planejamento
Lidar com questões sensoriais
Fortalecer a autoestima e a autoaceitação
Identificar e valorizar os pontos fortes
Criar adaptações práticas para o dia a dia que respeitem as características individuais

Quanto mais cedo a pessoa recebe o diagnóstico e inicia as intervenções adequadas, maiores são as possibilidades de desenvolver estratégias eficazes, reduzir o sofrimento emocional e construir uma vida mais alinhada com seu funcionamento real.

Fontes consultadas:
Hirota T, King BH. Autism Spectrum Disorder: A Review. JAMA. 2023;329(2):157-168.
Lord C, Elsabbagh M, Baird G, Veenstra-Vanderweele J. Autism Spectrum Disorder. Lancet. 2018;392(10146):508-520.
American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, Fifth Edition, Text Revision (DSM-5-TR). 2022.
Bozzi Y, Provenzano G, Casarosa S. Neurobiological Bases of Autism-Epilepsy Comorbidity: A Focus on Excitation/Inhibition Imbalance. European Journal of Neuroscience. 2018;47(6):534-548.
Ballester P, Richdale AL, Baker EK, Peiró AM. Sleep in Autism: A Biomolecular Approach to Aetiology and Treatment. Sleep Medicine Reviews. 2020;54:101357.

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